30 de abr de 2008



Estou lendo Carta a D. , de André Gorz e acho que nunca li nada parecido em se tratando de amor... olhos constantemente marejados embaçam a leitura. Este lindo casal viveu junto durante quase sessenta anos. Dorine, sua mulher, foi sua amiga, musa, companheira de cama e trabalho e tornou-se a figura central na vida de André, incentivando sua escrita, carreira e silêncio... Neste livro ele conta essa história e faz a gente acreditar que os encontros são possíveis e que no fim, o que realmente importa é o amor. Se você está sofrendo por alguém, prepare os lencinhos.
Segue o primeiro paragrafo do livro:
"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher."
ai, ai...

25 de abr de 2008

no mais espero alcançar tua harmonia. fui tão solitária até aqui. notas e noites desenharam minha partitura. sua trilha tão perfeita. dias dissonantes. meu violão perdido em tantos passos. o teu em pleno fluxo. escolhi você sem dedos calejados de alegria. minhas mãos só serviram labuta papéis canetas pincéis. eu on você off. duzentas mil rotações até te encontrar. minha vitrola está quebrada. percussões metais. tua corda de aço que não quer ceder. eu Fado você Tarantela. eu Tango você Maxixe. eu Seresta você Partido Alto. nós dois Samba Canção que fiz para você. sua falta pérola. minha paixão diamante. minhas palavras fogo. no teu coração água. você em mim grave. eu em você aguda. Pixinguinha, Vinicius, Dorival. nosso caso em qualquer tom. minha ópera Orfeu da Conceição a sua La Traviata. caso sério fato consumado disritmia cronica. eu música de acaso de Cage. você samba bem humorado de Noel. teclas brancas pretas. nossa história sanfona piano virtual. composição mal acabada. saudade vira a melodia do Carnaval.
Ilustração de R. Crumb

14 de abr de 2008




Fui ler o Hajasaco e achei essa poesia. Eu adorei! E a pergunta é: eu já criei casca, coragem e poesia, será que estou preparada para perder ou achar outro amor?


A ARTE DE PERDER

É preciso perder um amor
- ao menos uma vez na vida -
para que se crie casca, coragem e poesia.
É preciso deixá-lo perdido
entre as quinquilharias sem importância
de um armário empoeirado
no bolso de uma calça rasgada
ou jogado na rua
de um grande centro comercial.

É preciso perder um amor
num domingo de sol
após um piquenique com as crianças
- e as formigas.
É preciso olhar o mar como quem vai se afundar
esquecer as contas
e desacreditar.

É preciso perder um amor
se sentir esvaziado
carente de significado.
É preciso caminhar tranqüilo
sem aquilo
que um dia foi o próprio caminho.
(andar com as mãos avulsas sem o calor e o balanço habitual).

É preciso perder um amor
no labirinto dos dias
seguir pegadas de chocolate
bater a cara no vidro
e quebrar o nariz.
É preciso ser um astronauta da saudade
ficar em órbita
e reconstruir satélites.

É preciso perder um amor
no cassino
apostar todas as fichas
e acordar falido.
É preciso ir até o fim
- mesmo que o fim seja logo ali
na boca do caixa.

É preciso perder um amor
para que alguém encontre
- em qualquer quebrada -
aquilo que foi deixado a esmo
na friaca do outono
num cantinho da casa
ou ao sabor (agridoce) do vento.

É preciso perder um amor
ouvir Chet Baker baixinho
entender as estrelas, a lua e a sarjeta.
É preciso ir ao cinema
rever os amigos
e tomar conhaque.

No mais é perder para depois ganhar...

Gilberto Amendola, 32, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras
http://hajasaco.zip.net/
O quadro é do Lucian Freud e chama-se "Ib and her Husband"

9 de abr de 2008

hoje estou sem inspiração. me disseram que eu tava escrevendo bem pelos motivos errados. acordei nua. achei a Clarice pela casa. me domestiquei e paguei as contas. sobrou uma mensagem. saí sorrindo...

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

8 de abr de 2008



eu ando cansada. alguns suspeitam que é nostalgia fibromialgia apatia. deixo as coisas para fazer. é minha forma, minha liberdade. resisto a doméstica que mora em mim. estendo o lençol pia sala balcão. usei muita força para te esquecer e ainda sim tu. nenhum dente siso nenhum juízo. já não sou tão líquida. você mexeu mexeu enquanto eu fervia. agora esta pasta grudenta de areia e solidão. regurgitofagia. meus pulsos exaustos. minha garganta cheia de girinos a arranhar. homem ilusão. nossos pecados estão abençoados dentro de um baú.

eu ando realmente bastante cansada. alguns dizem que é anemia azia poesia. não há nada a fazer sem você. resisto as alcoólicas com autoridade. lavo os lençóis arrumo a cama te espero. não tenho mais se quer um apelo. nenhum dente. banguela de alma. você me deixou sólida. você fez o que fez e me desfez. agora sou esse peso de papel a segurar tuas ondas. sono plastia. meu corpo tão exausto de não se usar. minha boca tão seca de te esperar. homem ausência. nosso amor datilografado e arquivado na Biblioteca Nacional.

3 de abr de 2008


Para Camila Prada, minha "grande" amiga


as tias sempre diziam: tá forte, corada, saudável! tava era gorda. minha mãe me enganou. empurrava batata doce, mandioca, farinha. para ficar com as pernas grossas. base robusta para sustentar minhas ramificações de Jatobá. sonhos impossíveis no quarto da menina. negava o rosa, o justo, o curto, as duas peças. sem entender a beleza Renascentista. sem entender o Gótico. sem entender as revistas caprichadinhas. adolescentes homens e sua crueldade. rejeição. uma vez uma professora de Antropologia, grande como um Botero, ensinou que já foi musa. um espírita médium foi quem lhe disse que se altura e magreza fossem beleza Girafa era miss Brasil. a irmã, fugindo da tradição, ficou magra e logo publicou: gordura nas coxas é carência! acho que tem gente que prefere definhar e gente que prefere explodir. a primeira vez que ouviu que tava magra demais se sentiu completamente ofendida aquela amiga. uma linda espanhola. ancas, pernas, peitos. sorriso magistral. uma provedora. instintos, conflitos. deixem-me crescer em paz! aceitação. calor. espaço. kilometros de espaço para preencher. decretaram a beleza Slim, a beleza sarada, a beleza maquiada por megapixels. crueldade com todas as carnes que não cabem. Alice, Cinderela, Bela adormecida, Amazonas, santas, Barbies. todas magrinhas coitadinhas. fraquinhas. desmilinguidas. a gordura é que dá gosto amiga. você nem gosta de vegetarianos. tanta coisa para pegar. tanto tempo para encontrar. beleza secreta do autêntico pecado!


2 de abr de 2008

Projeto "Cada um a seu modo", duas peças inéditas no Brasil de Luigi Pirandello, estréia amanhã, vamos? A temporada no Sérgio Cardoso é curtinha... mas depois a gente vai para o João Caetano. Tem uma mãozinha minha lá! Vai espiar! Abraços





Deu zebra
meu avô só me ensinou a jogar dominó e pescar. não sou mulher de tabuleiros. nem de blefar. foi por conta disso que me deixou. sinto a falta dele como quem perde o gol. me tratou tão mal aquele desconsertado. fiquei dias e noites inconsolável. que pessoa estranha fica o apaixonado. não era pro meu naipe aquele safado. fui até meu Babá pedir ajuda. mandinga de amor cura. me enfeiticei para esquecê-lo. rezei para Ogum, meu guerreiro. pedi outro homen no meu terreiro. jogo de várzea esse seu. quero um grande artilheiro. mas ainda sinto uma gastura só de pensar. aquele homem canalha por aí a vadiar. tabela mal feita com seu Orixá. camisa amarela para não se entregar. uniforme de folguedo para não me amar. seu corpo leviano que já não quer me usar. lance arriscado. minha boca vermelha de puta a praguejar. aqueles olhos famintos, aquele homem vulgar. disse que não me quis para não me magoar. me deixou um desgosto de amargar. Ai, Vinicius não quis me ajudar. se não me trouxe aquele bandido, é porque boa coisa não há. acho que foi depois do Carnaval. ou antes de eu me acostumar. vou jogar no bicho, cachorro!